Labirintite

O mito da labirintite

          O aparelho labiríntico corresponde a um órgão que faz parte da orelha interna e é um dos principais responsáveis pelo nosso senso de equilíbrio. Labirintite é o nome que se dá a uma inflamação (ou irritação) do aparelho labiríntico. Quando alguém está tonto (em especial se a tontura tem caráter rotatório), quase sempre é por conta de um mau funcionamento do aparelho labiríntico, ou seja, uma labirintite.
           Não seria exagero afirmar que o diagnóstico de "labirintite", no entanto, é um diagnóstico capenga.
           Isso porque o médico que faz o diagnóstico de "labirintite" está praticamente devolvendo ao paciente a sua queixa (tontura) com outro nome. Labirintite (ou síndrome labiríntica) não é um diagnóstico final. Significa simplesmente dizer que a pessoa está tonta. É preciso, isso sim, investigar uma causa para essa tontura (labirintite) e tentar então atuar sobre ela.
           Muito menos o uso de depressores labirínticos, como cinarizina (Stugeron) ou flunarizina (Vertix) são um tratamento específico. Estas medicações estão para a labirintite como a Dipirona (Novalgina) está para dor. Elas são medicações sintomáticas, ou seja, tendem a controlar (diminuir) a tontura sem agir sobre a causa, assim como a dipirona controla (diminui) a dor independente do que a causou.
          Então por que é tão frequente uma pessoa tonta ir a uma emergência, receber o diagnóstico de labirintite e então ser tratada com uma dessas medicações?
          Simples. Porque em muitos casos não conseguimos ter certeza da causa da labirintite, mesmo depois de investigar. De modo que ao invés de dizer ao paciente "você está tonto e eu, mesmo investigando, tenho grandes chances de continuar sem ter certeza do porquê", preferimos dizer "você está com labirintite, tome aqui essa medicação que você deve ficar bom. E se a tontura voltar, bem labirintite é assim mesmo, não tem cura...".
          Mas é óbvio que este não é um motivo aceitável para não se investigar e tentar encontrar uma causa. Até porque, em quase todas as labirintites recorrentes (aquelas nas quais o paciente tem mais de uma crise ao longo da vida) podemos identificar uma causa e estabelecer um tratamento mais específico.

O mito do exame do labirinto

          "Estava tonta, fiz o exame do labirinto e confirmou labirintite".

          Este é outro mito. O exame do labirinto, aquele em que se joga água ou ar quente no ouvido do paciente, chamado de Vectoeletronistagmografia (VENG) não "diagnostica" labirintite, até porque, como já explicamos, labirintite não é um diagnóstico etiológico. Tampouco é um exame capaz de identificar com exatidão a causa da labirintite. Ele pode, no máximo, sugerir uma possível causa para aquela labirintite, apontar um caminho, mas está longe de ser incisivo, definitivo em seu resultado.
          Aliás, um resultado normal no teste do labirinto não exclui labirintite. Trata-se, portanto, de um exame limitado, que pode até ajudar quando considerado em conjunto com outros dados da investigação, mas não de forma isolada. Na prática, é um exame superdimensionado. Não é errado pedi-lo ou fazê-lo, em absoluto, mas é preciso ter expectativas realistas quanto ao que ele pode oferecer de resultado. E isso deve estar claro para o paciente.

Quais são então as causas de labirintite?

           Existem dezenas de causas. Algumas mais frequentes que outras. A história clínica e o exame otorrinolaringológico ajudam muito na identificação da causa.

Neuronite Vestibular
 
           A neuronite vestibular caracteriza-se por uma crise aguda de vertigem (sensação de que o ambiente ao seu redor está rodando), de início súbito, de forte intensidade, que impede a pessoa de deambular e causa náuseas e vômitos, de duração de vários dias. A crise começa a ceder em poucos dias, mas a pessoa costuma demorar de 2 a 3 semanas, por vezes vários meses, para sentir-se completamente recuperada. Ninguém sabe direito a causa. Em crianças, ela costuma suceder um quadro gripal. A boa notícia é que a neuronite vestibular não costuma recorrer. Isto é, não é uma doença crônica.
           Em se tratando de um primeiro episódio de tontura e sendo este característico de neuronite vestibular, pode-se optar sim pelo tratamento sintomático sem maiores investigações, desde que tenha uma evolução favorável. Crises de tontura recorrentes, entretanto, devem sempre ser investigadas.
 
Vertigem Postural Paroxística Benigna (VPPB)
 
john epley e krishnamurti sarmento           Já este tipo de tontura tem características bem diferentes. Trata-se de uma tontura relacionada à movimentação da cabeça, em especial quando a pessoa olha para cima, para baixo ou se vira na cama. A tontura é forte mas dura poucos segundos e então passa. Não costuma causar vômitos nem incapacitar a pessoa para andar, mas certamente incomoda bastante. Em alguns casos consegue-se estabelecer uma relação com um trauma na cabeça ou algum tipo de ginástica que exija da pessoa ficar de cabeça para baixo (comumente yoga ou pilates).
           Esse tipo de labirintite é causado pelo deslocamento de cristais dentro do aparelho labiríntico, que ficam se chocando contra as paredes do labirinto e irritando-o, causando a tontura.
           O diagnóstico pode ser feito com facilidade através de uma simples manobra no consultório do otorrinolaringologista, que vai identificar qual o labirinto afetado e se trata do tal deslocamento do cristal, chamada de manobra de Dix-Halpike.
           O tratamento é mais simples ainda. Basta uma manobra que é feita no próprio consultório para "reposicionar" os tais cristais no devido lugar e virtualmente curar a tontura. Essa manobra foi idealizada por um otorrinolaringologista chamado Epley e leva seu nome.
 
Labirintite de origem metabólica
 
           Qualquer variação, em especial brusca, nos níveis de colesterol, triglicerídeos, glicose ou creatinina, dentre outros, podem causar tontura. Costumam ser crises de menor intensidade, referidas muitas vezes como uma sensação de cabeça leve ou desequilíbrio. A variação dos hormônios tireoideanos também estão muito relacionados à labirintite.
            Identificar estas alterações e corrigi-las é o tratamento mais importante para a labirintite de origem meatbólica.
 
Labirintite de origem vascular ou cardíaca
 
           Alterações do fluxo sanguíneo para o aparelho vestibular também podem causar tonturas. Obstruções do fluxo da carótida e em especial da artéria basilar, muitas vezes relacionadas a problemas de coluna. Esta, entretanto, não é uma causa tão comum quanto se imagina.
         Arritmias cardíacas também podem se manifestar como tontura. Pacientes sabidamente portadores de arritmia devem imediatamente proceder uma avaliação cardiológica em caso de tonturas. A tontura associada a palpitações ou dores no peito também inspiram um cuidado maior.
                Crises hipertensivas também podem se manifestar como tontura.
 
Labirintite medicamentosa
 
            Determinadas medicações podem ser tóxicas para o labirinto. Algumas causam tonturas só enquanto estão sendo usadas, outras causam danos irreversíveis ao labirinto. Dentre as mais comumente associadas a labirintite estão o uso crônico dos salicilatos, em especial o AAS (muito usado por portadores de doença cardíaca, o AAS Infantil), os aminoglicosídeos (espécie de antibiótico que só existe para uso venoso) e as medicações para tratamento da tuberculose.
 
Síndrome ou Doença de Ménière
 
           É uma das causas mais comuns de labirintite crônica, isto é, aquele tipo de labirintite que acompanha a pessoa por muitos anos.
           A Síndrome de Ménière é uma espécie de hipertensão do aparelho labiríntico, isto é, um desbalanço entre a absorção e produção de um líquido chamado endolinfa, que preenche o aparelho labiríntico, fazendo a pressão dentro do labirinto aumentar por um excesso desse líquido.
            O paciente normalmente apresenta crises recorrentes de tonturas, que vêm acompanhadas de sensação de pressão no ouvido e, por vezes, perda auditiva e zumbido. A perda auditiva pode ser flutuante (ir e voltar) ou permanente.
       O diagnóstico se faz pela história clínica, pela audiometria e por um exame chamado eletrococleografia.
           O tratamento é com uma dieta restritiva para sal e derivados de cafeína, além de diuréticos (semelhantes aos usados para o tratamento da hipertensão). Alguns casos podem inclusive necessitar de tratamentos intratimpânicos (injeção de medicamentos diretamente no ouvido) ou mesmo cirurgia (descompressão do saco endolinfático ou neurectomia vestibular).

Dr. Krishnamurti Sarmento Junior

  • Médico formado há 16 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
  • Otorrinolaringologista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
  • Pós-Graduado em microcirurgia no Serviço do Prof. Ugo Fisch - Suiça.
  • Mestre em Cirurgia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.
  • Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia da Policlínica da PMDF.
  • Membro titular da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia.