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1- O
mito da labirintite.
O aparelho
labiríntico corresponde a um órgão que fica bem perto da orelha
interna e é um dos principais responsáveis pelo nosso senso de
equilíbrio. Labirintite é o nome que se dá a uma inflamação (ou
irritação) do aparelho labiríntico. Quando alguém está tonto,
quase sempre é por conta de um mau funcionamento do aparelho
labiríntico, ou seja, uma labirintite.
O
diagnóstico de "labirintite", no entanto, é um dos maiores
engodos da medicina moderna.
Isso porque o
médico que faz o diagnóstico de "labirintite" está praticamente
devolvendo ao paciente a sua queixa (tontura) com outro nome.
Labirintite (ou síndrome labiríntica) não é um diagnóstico
final. Significa simplesmente dizer que a pessoa está tonta. É
preciso, isso sim, investigar uma causa para
essa tontura (labirintite) e tentar então atuar sobre ela.
Muito menos o
uso de depressores labirínticos, como cinarizina (Stugeron) ou
flunarizina (Vertix) são um tratamento. Estas medicações estão
para a labirintite como a Dipirona (Novalgina) está para dor.
Elas são medicações sintomáticas, ou seja, tendem a controlar
(diminuir) a tontura sem agir sobre a causa, assim como a
dipirona controla (diminui) a dor independente do que a causou.
Então por que é tão
frequente uma pessoa tonta ir a uma emergência, receber o
diagnóstico de labirintite e então ser tratada com uma dessas
medicações?
Simples.
Porque na maioria das vezes (cerca de metade dos casos) não
conseguimos descobrir uma causa para a labirintite, mesmo depois
de investigar. De modo que ao invés de dizer ao paciente "você
está tonto e eu, mesmo investigando, tenho grandes chances de
continuar sem descobrir porquê", preferimos dizer "você está com
labirintite, tome aqui essa medicação que você deve ficar bom. E
se a tontura voltar, bem labirintite é assim mesmo, não tem
cura...".
Mas
é óbvio que este não é um motivo aceitável para não se
investigar e tentar encontrar uma causa. Até porque, em quase
todas as causas de labirintites recorrentes (aquelas nas quais o
paciente tem mais de uma crise ao longo da vida) podemos
identificar uma causa e estabelecer um tratamento mais
específico.
2- O
mito do exame do labirinto.
"Estava tonta, fiz o exame do labirinto e confirmou
labirintite".
Este é outro mito. O exame do labirinto, aquele em que
se joga água ou ar quente e frio no ouvido do paciente, chamado
de Vectoeletronistagmografia (VENG) não "diagnostica"
labirintite, até porque, como já explicamos,
labirintite não é um diagnóstico. Tampouco é um exame
capaz de identificar com exatidão a causa da labirintite.
Ele pode, no máximo, sugerir uma possível causa para aquela
labirintite, apontar um caminho, mas está longe de ser incisivo,
definitivo em seu resultado.
Aliás, um resultado normal no teste do labirinto não
exclui labirintite. Trata-se, portanto, de um exame
bastante limitado, que pode até ajudar quando
considerado em conjunto com outros dados da investigação, mas
não de forma isolada. Na prática, é um exame superdimensionado.
Não é errado pedi-lo ou fazê-lo, em absoluto, mas é preciso ter
expectativas realistas quanto ao que ele pode oferecer de
resultado.
3- Quais são
então as causas de labirintite?
Existem dezenas de causas. Algumas mais frequentes que
outras. A história clínica e o exame otorrinolaringológico
ajudam muito na identificação da causa.
3.1) Neuronite Vestibular
A neuronite vestibular caracteriza-se por
uma crise aguda de vertigem (sensação de que o ambiente ao seu
redor está rodando), de início súbito, de forte intensidade, que
impede a pessoa de deambular e causa náuseas e vômitos, de
duração de vários dias. A crise começa a ceder em poucos dias,
mas a pessoa costuma demorar de 2 a 3 semanas para sentir-se
completamente recuperada. Ninguém sabe direito a causa. Em
crianças, ela costuma suceder um quadro gripal. A boa notícia é
que a neuronite vestibular não costuma recorrer. Isto é, não é
uma doença crônica.
Em se tratando de um primeiro
episódio de tontura e sendo este característico de neuronite
vestibular, pode-se optar sim pelo tratamento sintomático sem
maiores investigações, desde que tenha uma evolução favorável.
Crises de tontura recorrentes, entretanto, devem sempre ser
investigadas.
3.2) Vertigem Postural Paroxística Benigna (VPPB)
Já este tipo de tontura tem
características bem diferentes. Trata-se de uma tontura
relacionada à movimentação da cabeça, em especial quando a
pessoa olha para cima, para baixo ou rola na cama. A tontura é
forte mas dura poucos segundos e então passa. Não costuma causar
vômitos nem incapacitar a pessoa para andar, mas certamente
incomoda bastante. Em alguns casos consegue-se estabelecer uma
relação com um trauma na cabeça ou algum tipo de ginástica que
exija da pessoa ficar de cabeça para baixo (comumente yoga ou
pilates).
Esse tipo de labirintite é causado pelo
deslocamento de um cristal (ou vários) dentro do aparelho
labiríntico, que fica se chocando contra as paredes do labirinto
e irritando-o, causando a tontura.
O diagnóstico pode ser feito com
facilidade através de uma simples manobra no consultório do
otorrinolaringologista, que vai identificar qual o labirinto
afetado e se trata do tal deslocamento do cristal, chamada de
manobra de Dix-Halpike.
O tratamento é mais simples ainda. Basta
uma manobra que é feita no próprio consultório para
"reposicionar" o tal cristal no devido lugar e virtualmente
curar a tontura. Essa manobra foi idealizada por um
otorrinolaringologista chamado Epley e leva seu
nome.
3.3) Labirintite de origem metabólica
Qualquer variação, em especial brusca, nos
níveis de colesterol, triglicerídeos, glicose ou creatinina,
dentre outros, podem causar tontura. Costumam ser crises de
menor intensidade, referidas muitas vezes como uma sensação de
cabeça leve ou desequilíbrio leve. Os hormônios tireoideanos
também estão muito relacionados à labirintite, mesmo nos casos
em que os níveis laboratoriais estão aparentemente normais.
Identificar estas alterações e
corrigi-las é o tratamento mais importante para a labirintite de
origem meatbólica.
3.4) Labirintite de origem vascular ou cardíaca
Alterações do fluxo sanguíneo para o
aparelho vestibular também podem causar tonturas. Obstruções do
fluxo da carótida e em especial da artéria basilar, muitas vezes
relacionadas a problemas de coluna. Esta, entretanto, não é uma
causa tão comum quanto se imagina.
Arritmias cardíacas também podem se
manifestar como tontura. Pacientes sabidamente portadores de
arritmia devem imediatamente proceder uma avaliação cardiológica
em caso de tonturas. A tontura associada a palpitações ou dores
no peito também inspiram um cuidado maior.
Crises
hipertensivas também podem se manifestar como tontura.
3.5) Labirintite medicamentosa
Determinadas medicações podem ser
tóxicas para o labirinto. Algumas causam tonturas só enquanto
estão sendo usadas, outras causam danos irreversíveis ao
labirinto. Dentre as mais comumente associadas a labirintite
estão o uso crônico dos salicilatos, em especial o AAS (muito
usado por portadores de doença cardíaca, o AAS Infantil), os
aminoglicosídeos (espécie de antibiótico que só existe para uso
venoso) e as medicações para tratamento da tuberculose.
3.6) Síndrome ou Doença de Ménière
É uma das causas mais
comuns de labirintite crônica, isto é, aquele tipo de
labirintite que acompanha a pessoa por muitos anos.
A Síndrome de Ménière é uma espécie
de hipertensão do aparelho labiríntico, isto é, um desbalanço
entre a absorção e produção de um líquido chamado endolinfa, que
preenche o aparelho labiríntico, fazendo a pressão dentro do
labirinto aumentar por um excesso desse líquido.
O paciente normalmente apresenta
crises recorrentes de tonturas, que vêm acompanhadas de sensação
de pressão no ouvido e, por vezes, perda auditiva e zumbido. A
perda auditiva pode ser flutuante (ir e voltar) ou permanente.
O diagnóstico se faz pela história
clínica, pela audiometria e por um exame chamado
eletrococleografia.
O tratamento é com uma
dieta restritiva para sal e derivados de cafeína, além de
diuréticos (semelhantes aos usados para o tratamento da
hipertensão). Alguns casos podem inclusive necessitar de
tratamentos intratimpânicos (injeção de medicamentos diretamente
no ouvido) ou mesmo cirurgia (descompressão do saco
endolinfático).
Há muitas informações sobre doença de ménière na internet.
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