Uso do LASER em cirurgias otorrinolaringológicas

O que é cirurgia a LASER?

          A palavra LASER é na verdade uma abreviatura (um acrônimo) de "Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation". Trata-se de um tipo de luz de características muito especiais: ela é monocromática (possui frequência muito bem definida), coerente (possui relações de fase bem definidas) e colimada (propaga-se como um feixe). Essas características permitem que o LASER concentre grande quantidade de energia e extrema precisão. Para a cirurgia, precisão é algo extremamente desejável.

          As vantagens do uso do LASER são:

  • Menos edema (inchaço) dos tecidos no pós-operatório, uma vez que a precisão do corte leva a um trauma mínimo dos tecidos adjacentes;

  • Recuperação mais rápida;

  • Sangramento menor, uma vez que a alta concentração de energia evapora o tecido operado;

  • A maior parte dos procedimentos necessita apenas de anestesia local, justamente pela precisão e menor manipulação dos tecidos;

  • Em geral, menos dor no pós-operatório.

Isso não significa dizer que o LASER está indicado para todas as cirurgias nem que tudo deve ser operado a LASER. Ele é apenas mais uma arma que o médico pode lançar mão quando julgar útil. Mas é sempre bom lembrar que LASER não opera sozinho nem faz milagre. Se a cirurgia for mal indicada ou mal executada, o resultado não será bom da mesma forma que na técnica convencional. A decisão sobre a necessidade do uso do Laser deve ser individualizada.

 

Cirurgia a Laser da Laringe

          Este talvez seja o campo mais promissor do uso do LASER em cirurgias otorrinolaringológicas. Existem inúmeras indicações, em especial nos tumores benignos e malignos da laringe. O uso do LASER no câncer de laringe vem ganhando muita força na última década. Cirurgias para papiloma laríngeo, cirurgia das sinéquias e membranas das pregas vocais e granulomas de cordas vocais são algumas das indicações em que o LASER se mostrou de grande utilidade., etc.
          Novamente, convém afirmar que nem toda cirurgia de laringe pode ou deve ser realizada a Laser.  O LASER não está indicado, por exemplo, na cirurgia de nódulos das cordas vocais. Os casos devem ser avaliados individualmente.

           Alguns artigos científicos sobre o tema:

1- Transoral Laser Microresection of Advanced Laryngeal Tumors. Cummings Otolaryngology - Head and Neck Surgery E-Book: Head and Neck Surgery, 3-Volume Set. Philadelphia: Elsevier Health Sciences; 2010:1525-1538. - Clique aqui

2- Burns, JA; Har-El, G; Shapshay, S; Maune, S; Zeitels, SM; Burns, JA; Har-El, G; Shapshay, S; Maune, S; Zeitels, SM. Endoscopic laser resection of laryngeal cancer: is it oncologically safe? Position statement from the American Broncho-Esophagological Association. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology 118(6):399-404; 2009. Clique aqui

3- Yan, Y; Olszewski, AE; Hoffman, MR; Zhuang, P; Ford, CN; Dailey, SH; Jiang, JJ. Use of Lasers in Laryngeal Surgery. Journal of Voice 24(1):102-109. Clique aqui

4- Zeitels, SM; Burns, JA; Zeitels, SM; Burns, JA. Laser applications in laryngology: past, present, and future. Otolaryngologic Clinics of North America 39(1):159-172; 2006. Clique aqui

Cirurgia a Laser do Nariz

          O Laser é particularmente útil para casos de cirurgias nasais revisionais, em especial no tratamento de desvios septais residuais, em que a reoperação por técnica convencional implica em um risco maior de perfuração septal, nos casos de sinéquias nasais (aderências que podem resultar de complicação de uma cirurgia nasal) ou ainda nos casos em que há alguma contra-indicação formal à técnica convencional.

Cirurgia a Laser da Garganta

          O Laser pode ser utilizado na cirurgia das amígdalas seja na sua remoção completa seja na criptólise das amígdalas para o tratamento da produção de caseum.
          O uso do LASER nas amígdalas tem vantagens e desvantagens.
A técnica a LASER não necessita de anestesia geral, sendo feita com anestesia local. A amígdala não é removida por completo mas sim reduzida substancialmente até a eliminação das criptas (buracos nas amígdalas que costumam acumular restos alimentares e com isso desencadear infecções). Como a cápsula é preservada, não há exposição da musculatura subjacente e com isso a recuperação é mais rápida e um pouco menos dolorosa (embora não seja indolor).
           Por outro lado, por preservar parte do tecido amigdaliano, a técnica a LASER frequentemente precisa de mais de uma sessão (procedimentos seirados).

 

 

 

 

 

A realidade do uso do LASER no Brasil

          É fato que a evolução tecnológica tem sido uma aliada importante da medicina. O advento de novos instrumentais e aparelhos têm permitido procedimentos cirúrgicos menos invasivos, com menor dano tecidual e, por conseguinte, com recuperação mais rápida. Não obstante, a evolução tecnológica impõe o ônus de cirurgias mais dispendiosas, o que preocupa os planos de saúde, que procuram otimizar custos e benefícios.
             O Laser está inserido nesse grupo de equipamentos que aumentam o preço da cirurgia e, por conseguinte, tem seu uso frequentemente (ou quase sempre) negado pelos planos de saúde. Alie-se a isso o fato de poucos especialistas o solicitarem, não só pela falta de treinamento e experiência dos profissionais no seu uso, como também pela própria cultura que já se criou que "convênio não aprova esse tipo de coisa", o que acaba gerando um ciclo vicioso. É comum os planos de saúde alegarem que "outros profissionais realizam esse procedimento sem Laser" ou "ninguém nunca pediu isso".
          Mais uma vez, é preciso frisar que a decisão do benefício do Laser depende da avaliação de cada caso. Também deve ser ressaltado que todo procedimento feito com o uso do Laser pode ser realizado sem essa ferramenta, com resultados satisfatórios. Não se pode atrelar um bom resultado ao uso do Laser. Aliás, nenhum médico pode prometer bons resultados simplesmente por usar essa ou aquela técnica. O que é fato é que há vários estudos que comprovam o benefício do Laser em muitos casos.

Dr. Krishnamurti Sarmento Junior

  • Médico formado há 16 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
  • Otorrinolaringologista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
  • Pós-Graduado em microcirurgia no Serviço do Prof. Ugo Fisch - Suiça.
  • Mestre em Cirurgia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.
  • Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia da Policlínica da PMDF.
  • Membro titular da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia.